GEASur e a Arte: “Terrumanidade, Terrexistencia e Territoriania: irrigações interculturais”

Título: Terrumanidade, Terrexistencia e Territoriania: irrigações interculturais

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Como as veias abertas da America Latina, nossos rios hoje secam pela voracidade e ganância dos “conquistadores” da natureza, fluindo o sangue, o suor e as lágrimas da nossa ancestralidade usurpada e silenciada em um projeto programado de colonização, baseado na expropriação da natureza e negação do outro. Os “bandeirantes”, caçadores de gentes e guiados pela cegueira em busca de ouro, foram incapazes de perceber a verdadeira riqueza a sua frente, não era o Ouro e sim o Outro da onde reluzia o tesouro mais fértil dessas terras que em se plantando tudo dá.

A exposição Terrumanidade, Terrexistencia e Territoriania: Irrigações Interculturais imerge nesses tesouros pelas suas reminiscências para transcender o brilho que ainda reluz nas periferias, aldeias, quilombos, favelas, terreiros, nos mestres e mestras campesinas, onde esses Outros revelam um pedaço de Nós que, apesar de silenciado, ainda pulsa. Os laços que formam esse tecido entrelaçado de nós e entrenós e que fertilizam de gente este solo latino americano ou Abya Yala, como chamavam os povos originários deste imenso continente, afirmam a humanidade e a existência encarnadas à natureza e às confluências e transfluências que hoje são memórias bioculturais, suficiências intimas nas reminiscências dos saberes ancestrais, os quais reexistem e nos incitam a emergir no nosso direito de existir e ser em nossa humanidade.
Apesar da dor o amor há de vencer e a arte apresentada nesta mostra coletiva é uma declaração de amor, uma insurgência poética de imagens e instalações, que sugerem a reterritorialização da importância e valor da diversidade cultural, do conhecimento ancestral e popular e da íntima relação entre natureza e cultura.

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“direito a terra
direito a água
direito ao ar que eu respiro
direito a ser que eu sou
sou terrumanidade
terrexistencia
territoriania
no sangue das minhas veias abertas
america latina
corre o sangue e a vida das minhas ancestrais
voz de griots
pajés
xamas
e minhas avós
mais velhas
velam a minha voz, indignação
sou terrumanidade
terrexistencia
territoriania”

Musica da Disrithmia in Blues
inspirada pela tese de doutorado de Marcelo Stortti.

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Essa exposição coletiva foi apresentada no II Curso de extensão em Educação Ambiental de Base Comunitária e Ecologia Política na América Latina realizado na Unirio no dia 18 de agosto de 2018. Contamos a participação dos processos artísticos de

Tita Bevilaqua: Objeto “Colhendo Lírio” e tela “Não era peixe, não era”. Uma sensível homenagem ao feminino com estética conectada aos saberes tradicionais e referência às energias das águas representadas pelas orixás Oxum e Iemanjá.

Daniel Renaud: Fotografia de crianças indígenas Krahô brincando com a natureza realizadas em uma imersão de formação de Educação Ambiental na Aldeia Nova em Tocantins (2015).

Emerson Guerra: Fotografia povo Krahô
na Terra Indígena Krahô de Tocantins. Foto machadinha sagrada “KOJRÉ” na aldeia Pedra Branca (2013) e fotos de corrida com toras de Buriti e da cantoria na festa da batata na Aldeia Manuel Alves (2015).

Celso Sánchez: Fotografia dos indígenas Guarani M’bya na Aldeia Araponga em Paraty (2016). Foto da paisagem vista da janela rústica e registros das mulheres indígenas na cerimônia de batismo do milho.

Luan e Pâmela: Terrários, chamados de Terráqueos, microecossistemas que utilizam elementos paisagísticos de forma harmônica e nos aproximam da natureza. Podem ser integrados as práticas educativas no debate de questões socioambientais.

Raiene e Silas Evangelista: Charges de agricultores do Movimento dos Atingidos por Barragens na luta pela vida e contra a barragem do Guapiaçu que retratam o processo de desapropriação, violência e disputa territorial no período da ditadura e o atual conflito pela água gerado pelos grandes projetos de desenvolvimento que atingem Cachoeiras de Macacu.

Bárbara Pelacani: [foto]escrevivências sobre o conflito da barragem do guapiaçu e a colombiana pedagogia da Maestra Lola. Criadas com inspiração na prof. Conceição Evaristo com reflexões sobre uma Educação Ambiental de Base Comunitária.

II Curso de Extensão do GEASur – Ecologia Política e Educação Ambiental de Base Comunitária – 3ª aula

II Curso de Extensão em Ecologia Política e Educação Ambiental de Base Comunitária (GEASur)
Aula nº3 – 21 de julho
Tema: “Conceito de Totalidade para subsidiar práticas em Educação Ambiental”.

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Palestrantes: Prof. Dra Inny Accioly (UFRJ) e Mônica Lima (Aldeia Maracanã).

Resumo por Daniel Renaud, Marcelo Stortti e Stephanie di Chiara

 

Essa foi uma aula prática na Aldeia Maracanã. Tivemos um momento inicial de apresentação dos participantes e das palestrantes convidadas, depois foi realizada uma singela homenagem à Marielle Franco, a quem todas atividades do GEASur têm sido dedicadas neste semestre.

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Na sequência, foi realizada uma visita guiada pelo prédio do antigo museu do índio, onde os participantes puderam observar e fotografar o espaço enquanto ouviam relatos sobre a história do território e da ocupação da aldeia maracanã. Após, iniciou-se um mutirão orientado pelo Dário, indígena da Aldeia Maracanã, onde os participantes do curso puderam realizar diferentes atividades práticas que incluíram: a retirada do asfalto para liberar o solo; o plantio de mudas e sementes; a irrigação de mudas e árvores previamente plantadas; ou seja, o manejo da área. Após este momento, todos os participantes se reuniram na Oca para ouvir a fala da palestrante Inny Accioly sobre o conceito de totalidade na educação ambiental crítica. Iniciou sua palestra com a pergunta: Como passar da critica para a práxis?


Em seguida, a ativista Monica Lima fez uma fala orientando para a dinâmica que se seguiria. Foram elencados 5 temas para discussão em grupo: Universidade Indígena, Escola Indígena; Congresso Indígena; Movimentos autônomos latino-americanos de autodefesa; Fossa de evapotranspiração. Os participantes do curso se dividiram nos grupos de acordo com seus interesses, e tiveram 30 minutos para leitura do material disponibilizado e para a formulação de propostas concretas de ação para o fortalecimento da Aldeia Maracanã e, consequentemente, do movimento indígena. Decorrido o tempo, novamente foi organizada uma grande roda, onde os grupos apresentaram seus temas, suas sínteses e propostas de intervenção.

Tirou-se uma data de retorno à Aldeia Maracanã, 15 de setembro às 14h, para avaliação da implementação das propostas que surgiram deste primeiro momento. Para encerrar a vivência na Aldeia, fizemos uma fogueira, onde os indígenas entoaram seus cantos e todos dançamos.

II Curso de Extensão do GEASur – Ecologia Política e Educação Ambiental de Base Comunitária – Trabalho final

A todos os participantes do II Curso de Ecologia Política e Educação Ambiental de Base Comunitária na América Latina segue modelo para elaboração do trabalho final a ser enviado por email para o endereço eletrônico geasur@hotmail.com até o dia 5 de outubro de 2018.
Lembrando que os trabalhos deverão ser divididos por 3 eixos temáticos: Educação Ambiental em Espaços Formais de Ensino; Educação Ambiental de Base Popular; Educação Ambiental e Ecologia Política.

O trabalho pode ser feito em grupo de até quatro participantes, trio, dupla ou individual.

Destacamos que os participantes deverão indicar o eixo escolhido até o último encontro do curso, no dia 18 de Agosto.

No link a seguir está o modelo de formatação do trabalho:

MODELO ARTIGO PARA CURSO GEASUR

II Curso de Extensão do GEASur – Ecologia Política e Educação Ambiental de Base Comunitária – 2ª aula

Relatoria do II Curso de Extensão do GEASur – Ecologia Política e Educação Ambiental
de Base Comunitária – 07/07/2018 – 2ª aula. Realizada por Gaby Trindade.


– 1º momento: Introdução do GEASur
Daniel, membro do GEASur, explica o que é a Educação Ambiental de Base Comunitária,
conceito que articula a perspectiva da Educação Ambiental Crítica na América Latina, a partir de lutas sociais. Para mais informações sobre isso, indicamos a leitura de autores como Paulo Freire e Arboleda, além de trabalhos do próprio GEASur tais como as dissertações de Júlio Vitor Costa da Silva (Sociedades de água do morro da Formiga: Subsídios para Educação Ambiental de base comunitária e ecologia de saberes em uma favela carioca) e Daniel Renaud Camargo (Lendas, rezas e garrafadas: educação ambiental de base comunitária e os saberes locais no Vale do Jequitinhonha).
Anne, membro do GEAsur, perpassa o histórico do grupo, o situando na discussão das
macrotendências da Educação Ambiental no Brasil (conservacionista, pragmática e crítica. Para maiores informações sobre essa temática, indicamos o texto AS MACROTENDÊNCIAS POLÍTICO-PEDAGÓGICAS DA EDUCAÇÃO AMBIENTAL BRASILEIRA, de PHILIPPE POMIER LAYRARGUES e GUSTAVO FERREIRA DA COSTA LIMA). Nesse contexto, o GEASur se alinha à tendência crítica, mas com o diferencial de dialogar com o acervo teórico e prático da América Latina. Ressignifcamos o debate. Disputamos política e ideologicamente esse campo contraditório. Situando a Educação Ambiental Crítica frente às demandas, dialogamos com a Ecologia Política e com a temática “conflito ambiental”, tema comumente ocultado, até porque ele evidencia os papéis de cada ator social envolvido no mesmo. Uma das coisas que o GEASur investiga é justamente a pedagogia que emerge desses conflitos. Anne também destaca uma fala do professor Mauro Guimarães, da UFRRJ, que é fundamental especialmente para educadores: precisamos ter cuidado com a tendência a entrar numa “armadilha pragmática”, ou seja, reproduzir os modelos e o sistema sem perceber, achando que está questionando quando na verdade está fazendo as mesmas práticas que condena.
– 2º momento: Fala do Profº Henri Acselrad e perguntas
Henri falou sobre a justiça ambiental no contexto dos conflitos ambientais. Iniciou discutindo o processo de ambientalização das lutas sociais. Destacou que esse debate se iniciou na sociologia rural e depois acabou influenciando a sociologia ambiental. Depois apontou algumas contribuições do trabalho do geógrafo britânico David Harvey e do filósofo e sociólogo francês Henri Lefebvre, destacando o debate em torno das chamadas “práticas espaciais” e das tentativas de legitimação ou deslegitimação de tais práticas.
O professor seguiu argumentando que o atual modelo de desenvolvimento apresenta um
determinado padrão dominante de apropriação do espaço e de seus recursos que muitas vezes esbarra nos interesses e invade os territórios de populações tradicionais e povos originários que, em geral, saem em desvantagem nessa história. É diante deste confronto que surge o conceito de Conflito Ambiental, um conceito que corresponde a ideia de que grupos sociais com modos diferentes de uso, apropriação e significação do espaço e seus recursos acabam por entrar em conflito devido ao fato de as práticas de um dos grupos afetarem ou comprometerem o estilo de vida e as práticas do outro grupo.
Depois o professor comentou a apropriação deste discurso de ambientalização pelos
movimentos sociais e exemplificou com o caso do MST, que em sua luta para garantir de uma reforma agrária adota o discurso ambientalista e passam a questionar se de fato é possível considerar o modelo de monocultura dos latifundiários como “terras produtivas”.
Sobre estas lutas discursivas, Henri ainda exemplificou com Georgescu Roegen, o matemático e economista considerado pai da bioeconomia que traz os debates em torno da visão utilitária e hegemônica de Meio Ambiente enquanto recurso natural e sobre a dualidade entropia x sintropia. Continuou destacando a visão de que as questões sociais e as questões ambientais estão interligadas e, do mesmo modo, as lutas sociais e as lutas ambientais deveriam andar juntas, pois, assim como existe uma desigualdade social, há também a desigualdade ambiental.
Depois o professor Henri falou sobre as tentativas de defender a condição capitalista chegando ao absurdo de naturalizar a poluição e da criação de um verdadeiro culto ao progresso tecnológico como solução dos problemas ambientais. Na sequência comentou o problema da privatização dos espaços comuns, da apropriação de espaços comunais para atividades que degradam o ambiente e agravam as desigualdades.
Henri comentou ainda que em países do Norte como o Canadá a visão de privatização da
natureza vem se tornando uma tendência cada vez mais forte, reproduzindo a falsa ideia de que privatizando todos os problemas seriam magicamente solucionados.
Após essa fala, discutimos o conceito de Racismo Ambiental, comentamos sobre a falácia da democracia da poluição (ideia de que a poluição atinge à todos igualmente), falamos sobre o cenário de governança socioambiental global e pensamos os megaeventos e a expropriação territorial. Também compartilhamos um pouco da história do povo Mapuche, que sofrem com a chegada de empresários internacionais que se apropriam de suas terras. O espaço também é aproveitado para frisar que ações ambientais e ações educativas não são como receitas de bolo, não são simplesmente reproduzíveis em todo e qualquer contexto.
– 3º momento: Fala do Profº Sebastião Raulino e perguntas
Inicia contando sua história, quando começa sua preocupação social. Ele é da FAPP – BG
(Fórum dos Atingidos pela Indústria do Petróleo e Petroquímica nas Cercanias da Baía de
Guanabara), MPS (Movimento Pró-Saneamento e Meio Ambiente da Região do Parque
Araruama) e RBJA (Rede Brasileira de Justiça Ambiental).
Fala sobre Justiça Ambiental, Trabalho e Cidadania. Conta do caso Rhodia, na Baixada
Santista, cujo descarte tóxico das fábricas contaminou trabalhadores e moradores
(http://www.acpo.org.br/biblioteca/bb/Dossie1.htm). E comenta sobre a etapa II do Pré-Sal, na qual o litoral do Paraná, Santa Catarina e sul de São Paulo seriam os mais atingidos por um hipotético (e provável) vazamento, ao invés de Cabo Frio, que é o ponto mais próximo da perfuração. Explica como muitos enfrentamentos foram possíveis por conta da ação em rede.
Fala da opção pela educação ambiental crítica, buscando a justiça ambiental.
O professor relata sua primeira experiência propondo a Conferência Infanto-Juvenil pela Justiça Ambiental da 6ª CRE (SME-Rio). Essa CRE envolve Pavuna, Costa Barros, Acari, etc… O projeto foi por adesão, não era obrigatório. Organizaram GTs de professores e discutiram junto aos alunos água, atmosfera, resíduos, etc… Os estudantes elegeram delegados e estes votaram a Agenda 21 pela Justiça Ambiental. Na época em que iriam começar a por em prática as propostas votadas, começou a gestão Paes, com uma postura mais centralizadora, com os cadernos pedagógicos, e isso tirou um tanto a liberdade dos professores e minou o projeto.
Comenta também como os professores das escolas costumam conhecer pouco do contexto do entorno.
No espaço para perguntas, nos questionamos sobre privatização de saneamento básico e
plano de Resíduos Sólidos nos municípios; “nossa população não é violenta, mas violentada”: como vamos mobilizar pessoas para lutar pelo saneamento básico sem nem ter garantido à eles o direito à vida? Como MPS e FAPP dialogam com a população?; temos também uma fala de agradecimento por estar na UNIRIO falando sobre a Baixada Fluminense e a fala de Daniel Ferreira, mecânico, diretor da associação de moradores de Caxias.
Já no espaço para respostas, Sebastião ressalta que a Baixada convive com grupos de
extermínio há tempos e é preciso ter cuidado nos diálogos ali. Sobre a atuação dos grupos, eles crescem justamente com a busca e troca de saberes. Afirma que precisamos pensar e sair da petro-dependência e nos atentar para planos futuros. Salienta que é contra a privatização e que é preciso garantir direito à água com empresa pública e que o público funcione.
Finalizando o espaço, Mona, do Piauí, fala sobre não conhecermos a nossa história, e como isso faz com que repitamos ela. Fala de bairros negros na Bahia que sofrem com contaminação de chumbo; de quilombos no Amapá que estão lutando contra resíduos de manganês; a questão da Transnordestina; dentre outros. Ressalta que muitas vezes a empresa só muda de nome. Indica livro Planeta Favela, de Mike Davis, além de Negro Bispo e a bio interação.
Comenta também como o Piauí está ameaçado pelo avanço da monocultura. E fala da
dimensão do sagrado dos territórios.